Casinha de boneca...
Senhores,
acho que como foi colocada, a questão nos leva para caminhos um tanto tortuosos. Primeiro, por reproduzir a preocupação de todo cidadão respeitável e bundão de classe média de Timbó: o fim do sonho da casinha de bonecas timboense, a invasão da cidade por uma horda de descamisados, sujos, apodrecidos, pobres & burros, mas suficientemente audaciosos para tomarem nossos empregos e poluírem nosso espaço público. O timboense médio pensa que vive numa espécie de Europa fisicamente deslocada e reproduz até mesmo o discurso dos europeus sobre os imigrantes, que gerou conflitos como aquele recentemente ocorrido na França.
Além disso, quando perguntamos "Qual o limite saudável de imigração para a pacata cidade?" estamos incorrendo em uma proposta arriscada, no sentido de atribuir qualidades das ciências naturais para eventos sócio-políticos ou sócio-econômicos. Isso deixou de funcionar há pelo menos uns cem anos, quando as pessoas perceberam que o mundo natural e o social possuem especifidades distintas. E, se pensarmos em termos de "saúde" ou "patologia", a vida em Timbó já é suficientemente doente. Somos neuróticos, psicóticos e paranóicos, mas não por culpa dos paranaenses, catadores, mendigos e bandas satânicas.
Como anarquista enrustido, acho que não há razão para que o Estado venha a interferir na questão. O Estado já é falido, desvirtuado e incapaz. Se permitirmos uma intervenção desse tipo, estaremos abrindo precedentes para outros tipos de controle. Timbó já um tanto sufocante, não precisamos de outros constrangimentos, como o aumento do contingente policial.
O cerne da questão, eu creio, não reside na migração e tampouco na criminalidade. O ponto central é o modo como distribuímos nossas riquezas, como é construído o acesso aos mecanismos democráticos e como estabelecemos nossa intersubjetividade.
Acumulamos, em um curto período histórico, uma grande quantidade de trabalho e riqueza, infra-estrutura urbana e certas condições de bem-estar social. É compreensível que uma população mais pauperizada e reprimida acabe procurando usufruir dessas condições. É possível que exista uma tensão entre a população nativa e os "estrangeiros", uma certa resistência.
A violência surge dessa tensão. Os ricos querendo manter suas posses e os pobres, para os quais o processo de acumulação de quaisquer tipos de capital é mais dificultoso, apelando para atitudes mais dramáticas. É duro sentir a violência na pele, é desagradável ver os mendigos pedindo esmola na frente da sua casa, mas é preciso lembrar sempre que somos atores igualmente ativos no processo. Nossa atitude diante das coisas determina nossa própria realidade.
Por fim, proponho um exercício de imaginação: pensem em como Timbó seria menos medíocre e culturalmente mais produtiva se aceitássemos com maior facilidade as contribuições, os valores e as experiências de vida dos diferentes, dos migrantes, dos pobres e fudidos da vida.
A vida na casinha de boneca é muito bonita, mas sufoca de tão monótona.
acho que como foi colocada, a questão nos leva para caminhos um tanto tortuosos. Primeiro, por reproduzir a preocupação de todo cidadão respeitável e bundão de classe média de Timbó: o fim do sonho da casinha de bonecas timboense, a invasão da cidade por uma horda de descamisados, sujos, apodrecidos, pobres & burros, mas suficientemente audaciosos para tomarem nossos empregos e poluírem nosso espaço público. O timboense médio pensa que vive numa espécie de Europa fisicamente deslocada e reproduz até mesmo o discurso dos europeus sobre os imigrantes, que gerou conflitos como aquele recentemente ocorrido na França.
Além disso, quando perguntamos "Qual o limite saudável de imigração para a pacata cidade?" estamos incorrendo em uma proposta arriscada, no sentido de atribuir qualidades das ciências naturais para eventos sócio-políticos ou sócio-econômicos. Isso deixou de funcionar há pelo menos uns cem anos, quando as pessoas perceberam que o mundo natural e o social possuem especifidades distintas. E, se pensarmos em termos de "saúde" ou "patologia", a vida em Timbó já é suficientemente doente. Somos neuróticos, psicóticos e paranóicos, mas não por culpa dos paranaenses, catadores, mendigos e bandas satânicas.
Como anarquista enrustido, acho que não há razão para que o Estado venha a interferir na questão. O Estado já é falido, desvirtuado e incapaz. Se permitirmos uma intervenção desse tipo, estaremos abrindo precedentes para outros tipos de controle. Timbó já um tanto sufocante, não precisamos de outros constrangimentos, como o aumento do contingente policial.
O cerne da questão, eu creio, não reside na migração e tampouco na criminalidade. O ponto central é o modo como distribuímos nossas riquezas, como é construído o acesso aos mecanismos democráticos e como estabelecemos nossa intersubjetividade.
Acumulamos, em um curto período histórico, uma grande quantidade de trabalho e riqueza, infra-estrutura urbana e certas condições de bem-estar social. É compreensível que uma população mais pauperizada e reprimida acabe procurando usufruir dessas condições. É possível que exista uma tensão entre a população nativa e os "estrangeiros", uma certa resistência.
A violência surge dessa tensão. Os ricos querendo manter suas posses e os pobres, para os quais o processo de acumulação de quaisquer tipos de capital é mais dificultoso, apelando para atitudes mais dramáticas. É duro sentir a violência na pele, é desagradável ver os mendigos pedindo esmola na frente da sua casa, mas é preciso lembrar sempre que somos atores igualmente ativos no processo. Nossa atitude diante das coisas determina nossa própria realidade.
Por fim, proponho um exercício de imaginação: pensem em como Timbó seria menos medíocre e culturalmente mais produtiva se aceitássemos com maior facilidade as contribuições, os valores e as experiências de vida dos diferentes, dos migrantes, dos pobres e fudidos da vida.
A vida na casinha de boneca é muito bonita, mas sufoca de tão monótona.
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