quarta-feira, dezembro 21, 2005

A cultura? Mas essa é a mercadoria ideal, que obriga a comprar todas as outras. Não é estranho que você queira oferecê-la a todos...

I.

Não pretendo ir muito adiante com esse assunto. Afinal, não é preciso muito para perceber que estamos representando humores distintos em relação ao tema: de um lado, um pessimismo de cores nietzchianas, meio que fatalista. Do outro, uma postura idealista e – como não? – um tanto romântica.

Discutir pessoalmente é diferente do que ler, raciocinar e produzir um texto sobre um tema. As estratégias de retórica empregadas em ambos os casos são diferentes. Sem as interferências e interjeições de outros locutores, típicas de uma discussão verbal, estamos relativamente mais livres para ressaltar determinados pontos de vista e para encastelá-los por detrás de citações de autores consagrados, premissas intocáveis, argumentos positivos e floreio lingüístico. Todos temos um pouco de sofistas.

II.

Algumas vezes, admitir que estamos impregnados de moralismos é menos pernicioso do que nos julgarmos amorais ou livres de quaisquer influências. Afirmar que “temos milhões de pessoas desaculturadas” e “que os idiotas se reproduzem”, muito além de ser atual e metódico, significa também assumir o pressuposto moral de que os esclarecidos são mais valiosos que os tolos e de que, sem a alta cultura, estamos todos fadados ao fracasso. E mais: a afirmação nos posiciona obrigatoriamente e logicamente em um dos dois lados da distinção: o belo lado dos esclarecidos e libertos, pois se fossemos idiotas estaríamos jogando bilhar em algum boteco por aí, bebendo cachaça e reproduzindo – tarefas e ocupações tradicionalmente atribuídas aos néscios.

Para além da má distribuição de renda ou opressões institucionalizadas, é este tipo de pré-concepção e distinção que enterra os medíocres sob a sombra da minoria intelectualizada e cria aberrações como o comunismo stalinista e burocracias esclarecidas e ineficientes. Afinal, em oposição aos europeus e outros tipos de esclarecidos de alta estirpe, somos também todos ignorantes inertes, apesar de escrevermos para um blog onde cita-se “Nit-chê” freqüentemente. Nossa cultura é tão imposta, construída e derivada de outras culturas quanto a cultura da massa dos estropiados (sim, eles possuem uma cultura!).

III.

Eliminando nosso verniz de classe média, nossa educação privilegiada e as possibilidades providenciadas por nossa história de vida, somos tão humanos quanto a massa dita “desaculturada”. Os bebês possuem todos, ao nascer, as mesmas potencialidades. A diferença entre os “fracassados” e os “bem-sucedidos” reside nas possibilidades que decorrem do contexto de seu nascimento: sua família, classe, etnia ou Estado.

Nosso sistema de valores (atualmente tão mercadológico quanto qualquer outro) prima pela obtenção, manutenção e ostentação da cultura. Somos fetichistas da cultura - ela é nossa língua e nossa moeda. Os esfarrapados, por sua vez, certamente se guiam por outros valores, que sequer posso citar, pois nunca os aprendi completamente.

Qualquer julgamento ou hierarquização moral que possamos fazer, deve considerar estes fatores, ou estaremos incorrendo em injustiça e imprecisão. Deve-se dar voz aos rotos e aos tolos, pois eles tem muito o que falar. Sobretudo, devemos estar dispostos a ouvir, ou então estaremos falando apenas de nós mesmos. Devemos abandonar as análises assimétricas, ou produziremos apenas conclusões frágeis.

Algumas das pessoas mais maravilhosas que pude conhecer são filhos de lares menos abastados e culturalmente qualificados, mas nunca ficaram devendo nada aos “esclarecidos”. Custou-me muito para perceber que as virtudes humanas são inúmeras e que existem além dos discursos articulados ou do conhecimento sobre Bandeira, Wagner ou Duchamp.

Taxar a todos de noctâmbulos é uma generalização arriscada. Desconsidera a genialidade necessária para construir condições de vida em meio à escassez material e espiritual e as vicissitudes de manutenção de identidade e construção de reflexões em meio ao desgaste de trabalhar por oito horas no chão de fábrica. Meu único apelo, carregado de idealismo e talvez um tanto ingênuo, é que evitemos os discursos nublados pelo orgulho, pela hybris.

Ou então vou começar a escrever sobre futebol, cerveja e mulher.

Um grande abraço
Spiess