Aufklärung (é um buraco mais embaixo)
1.
A dúvida e o questionamento, como capacidades desejáveis ao ser humano, são frutos do Iluminismo e do Racionalismo, não me restam dúvidas. "Tenha a coragem de usar sua própria inteligência. Eis a divisa das Luzes", já dizia Kant. Assim, segundo o velho filósofo, todo conformismo é uma negação da capacidade humana de autonomia e de atingimento da maioridade. Em termos ideais, concordo sem hesitar. Sinto que a ignorância e o obscurantismo são sempre estados negativos.
No entanto, esta lógica não é válida para todos. Ainda que os filósofos tenham o hábito da generalização, da universalização de seus postulados intocáveis, a filosofia não é onipresente. Suas premissas não habitam a alma de todos os seres humanos. Para muitas pessoas o esclarecimento é uma não-questão, é solenemente ignorado. A distinção, a gratificação, enfim, a existência de algumas pessoas, baseia-se em quaisquer outros critérios, passando pelo modelo do automóvel, quantidade de terras possuídas, de esposas, chegando ao número de vitórias em uma guerra, etc. Quem quer saber sobre esclarecimento?
Em nosso sistema de status social (dos intelectualizados, dos filósofos e criaturas afins), o esclarecimento, além de ser um "fim", é também uma ferramenta de relacionamento entre indivíduos, um parâmetro, uma linguagem, um capital simbólico que posiciona os atores no contexto. Eis a medida de nossos homens cultos! um fenômeno social, metafísico apenas em conceito, o nosso esclarecimento tão querido. É social até a medula, certamente, por ser um elemento de interação entre indivíduos.
Deste modo, a relutância ao "esclarecimento" pode ser uma hesitação em relação ao conjunto simbólico-cultural do grupo. Ou ainda uma revelação da "sócio-lógica" do fenômeno, com seus prós e contras, em oposição aos louros prometidos pela filosofia. Penso que na realidade nunca se trata da aceitação ou negação de uma natureza transcendental, mas dos hábitos e valores que convencionamos chamar de "esclarecimento".
2.
Por outro lado, quais as vantagens em abdicar de suas capacidades de convencimento e imposição de idéias? Abrir mão da exposição de juízos é, sem dúvida, tão infeliz quanto procurar derrotar interlocutores em uma disputa retórica. Mais do que isso, é como dar um tiro no pé! Sem a discordância, o emissor de um determinado conteúdo linguístico ou conceitual não pode medir suas contradições, suas inconsistências e fraquezas, além de iludir-se quanto à grandeza e preponderância de suas idéias.
Em suma, não posso crer que o isolamento é garantia de refinamento de nossas presunções. Pelo contrário, idéias paridas no isolamento da mente de um único indivíduo não são mais fortes do que as menores fraquezas de seu criador. E jamais apresentarão densidade ou finalidade. Serão, como o esclarecimento é para os "tolos": uma não-questão.
A dúvida e o questionamento, como capacidades desejáveis ao ser humano, são frutos do Iluminismo e do Racionalismo, não me restam dúvidas. "Tenha a coragem de usar sua própria inteligência. Eis a divisa das Luzes", já dizia Kant. Assim, segundo o velho filósofo, todo conformismo é uma negação da capacidade humana de autonomia e de atingimento da maioridade. Em termos ideais, concordo sem hesitar. Sinto que a ignorância e o obscurantismo são sempre estados negativos.
No entanto, esta lógica não é válida para todos. Ainda que os filósofos tenham o hábito da generalização, da universalização de seus postulados intocáveis, a filosofia não é onipresente. Suas premissas não habitam a alma de todos os seres humanos. Para muitas pessoas o esclarecimento é uma não-questão, é solenemente ignorado. A distinção, a gratificação, enfim, a existência de algumas pessoas, baseia-se em quaisquer outros critérios, passando pelo modelo do automóvel, quantidade de terras possuídas, de esposas, chegando ao número de vitórias em uma guerra, etc. Quem quer saber sobre esclarecimento?
Em nosso sistema de status social (dos intelectualizados, dos filósofos e criaturas afins), o esclarecimento, além de ser um "fim", é também uma ferramenta de relacionamento entre indivíduos, um parâmetro, uma linguagem, um capital simbólico que posiciona os atores no contexto. Eis a medida de nossos homens cultos! um fenômeno social, metafísico apenas em conceito, o nosso esclarecimento tão querido. É social até a medula, certamente, por ser um elemento de interação entre indivíduos.
Deste modo, a relutância ao "esclarecimento" pode ser uma hesitação em relação ao conjunto simbólico-cultural do grupo. Ou ainda uma revelação da "sócio-lógica" do fenômeno, com seus prós e contras, em oposição aos louros prometidos pela filosofia. Penso que na realidade nunca se trata da aceitação ou negação de uma natureza transcendental, mas dos hábitos e valores que convencionamos chamar de "esclarecimento".
2.
Por outro lado, quais as vantagens em abdicar de suas capacidades de convencimento e imposição de idéias? Abrir mão da exposição de juízos é, sem dúvida, tão infeliz quanto procurar derrotar interlocutores em uma disputa retórica. Mais do que isso, é como dar um tiro no pé! Sem a discordância, o emissor de um determinado conteúdo linguístico ou conceitual não pode medir suas contradições, suas inconsistências e fraquezas, além de iludir-se quanto à grandeza e preponderância de suas idéias.
Em suma, não posso crer que o isolamento é garantia de refinamento de nossas presunções. Pelo contrário, idéias paridas no isolamento da mente de um único indivíduo não são mais fortes do que as menores fraquezas de seu criador. E jamais apresentarão densidade ou finalidade. Serão, como o esclarecimento é para os "tolos": uma não-questão.
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