quarta-feira, julho 05, 2006

da dúvida;

É realmente interessante. Não poucas vezes me
quedo surpreso pelo quão mínima é a individualidade
que uma idéia pode apresentar quando escrita. De qualquer
forma, vem-me a mente uma passagem de "As portas da
percepção", e parece encaixar-se muito bem ao contexto,
ainda que longe de bytes, intranets e internet.

"...Vivemos, agimos e reagimos uns com os outros; mas sempre, e sob quaisquer circunstâncias, existimos a sós. Os mártires penetram na arena de mãos dadas; mas são crucificados sozinhos. Abraçados, os amantes buscam desesperadamente fundir seus êxtases isolados em uma única autotranscendência; debalde. Por sua própria natureza, cada espírito, em sua prisão corpórea, está condenado a sofrer e gozar em solidão. Sensações, sentimentos, concepções, fantasias - tudo isso são coisas privadas e, a não ser através de símbolos, e indiretamente, não podem ser transmitidas. Podemos acumular informações sobre experiências, mas nunca as próprias
experiências. Da família à nação, cada grupo humano é uma sociedade de universos insulares.
..."
p. 3

Lembro-me de que há alguns anos havia escrito tal
trecho em uma folha qualquer e guardava-na comigo.
Não sei o porquê.

terça-feira, julho 04, 2006

Sobre as palavras e... a internet.

As coisas que escrevemos por aqui são efêmeras, é verdade. Sua relevância também é restrita a um número ínfimo de co-partícipes da internet. Não possuímos muita exclusividade, em quase nenhum aspecto nos diferenciamos do restante do conteúdo da internet. Mas, ainda assim, me intriga o processo por sua aparente simplicidade e sua possível complexidade.

As palavras que estão aqui passam por um longo processo de transformação, num ciclo de constante correlação entre símbolos e subjetividades, entre matéria e metafísica. Lidamos com pensamentos, com eletricidade, com equipamentos, com unidades de armazenamento de dados que existem há distâncias incalculáveis.

Nos instantes que precedem o toque dos meus dedos no teclado, as palavras aqui existem somente em minha subjetividade. São idéias e impressões que, apesar de originadas em um "hardware" - o meu cérebro - não podem ser mapeadas, localizadas ou quantificadas. Elas habitam o mundo um tanto desordenado e incompreendido do que convencionamos chamar aqui de metafísica.

Quando eu utilizo o teclado, o sistema computacional e a rede de computadores, o que era esparso e disforme é ordenado para existir fisicamente. Impulsos elétricos, magnéticos e luminosos são empregados para me mostrar o que eu digito no teclado, para a transmissão e armazenamento. São ferramentas que me ajudam a ordenar as idéias, para que elas adquiram inteligibilidade. Mas essa migração para o mundo físico para sempre altera a idéia e ele jamais será a mesma. Em essência, as coisas que escrevemos aqui são apenas sombras das idéias originais, que através de esforço foram transmutadas em algo físico.

De modo análogo, quando alguém aponta seu navegador para este endereço, as idéias (agora contidas em sua forma "material" ou "física") passam por uma nova transformação. O leitor percebe os símbolos contidos nos pixels do monitor, mas os interpreta de acordo com sua própria subjetividade, podendo muito bem atribuir significados diversos, diferentes dos que se pretendiam originalmente. A estabilidade garantida pelo armazenamento físico é dispersada, anulada.

As representações das idéias nunca são puras; as idéias nem sempre resistem às transformações; os textos da internet nem sempre são bons;