sexta-feira, dezembro 30, 2005

Concordo com seus pontos de vista, Tristero. E ressalto:
o racionalismo tornou-se deus;
a massa não possui culpa alguma, visto que sua ignorância inseminada alcançou um nível de retroalimentação;

ainda, Tristero, Sagatiba:
é nosso passado como o ouro?

sexta-feira, dezembro 23, 2005

...

Alguns comentários apenas:

I.

Romantismos temos aos montes, concordo plenamente. Mas o pragmatismo e o racionalismo são também universais e, quando levados aos extremos, são tão nocivos quanto os romantismos bolorentos. O racionalismo, apesar de nos colocar onde estamos, acabou com todo o encantamento do mundo. O mundo hoje é predominantemente racional.

Toda vez que alguém aposta na importância de analisar o mundo e intervir, sob a ótica do racionalismo e do cientificismo, morre um pouco o romantismo e as ideologias. Não me julgo capaz de tentar mudar o posicionamento de ninguém, mas escolho o meu com cuidado, oscilando entre os dois opostos.

Se levarmos a cabo um postura racionalista radical para os ditames de nossa vida, além de amorais ficaríamos estagnados. Em essência, racionalmente, não há razão para mudar o mundo, pois ele é imenso e resistente, e morreremos todos tristes e cansados. Mas todos precisamos de um motor para a vida, não?

II.

TODOS seus pontos de vista me parecem coerentes e lógicos. Sob uma análise fria, a massa é inerte, a massa é burra, a massa reproduz o sistema de opressão e possui sua parcela de culpa, por negar os instintos e permanecer dócil, por concordar silenciosamente com a opressão, etc.

Mas culpá-los por sua inércia é como responsabilizar uma mulher pelo seu próprio estupro, simplesmente por ela ser mulher e alimentar os desejos do estuprador! Em resumo, creio que nossa crítica não pode ser diretamente direcionada, com toda sua carga, aos oprimidos. Os opressores, os estupradores do povo (e de nós mesmos!) merecem muito mais críticas. Aliás, são um desafio ainda maior, por estarem sempre protegidos e blindados, por serem influências invisíveis.

III.

Por fim, faço meu atestado de concordância com Hegel e Marx, ao menos no que diz respeito a dialética. Nossas opiniões discordantes, ao invés de se anularem mutuamente, criam sempre algo novo: idéias geniais, filhas de um casamento pouco harmonioso.

A criação e a mudança residem sempre em determinado grau de conflito.

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I may be paranoid, but not an android...

Para não tornar o assunto ainda mais confuso do que se tornou, tentarei simplificar minha posição em relação a alguns aspectos apresentados. Se não for feliz, teremos de ser mais duros.

Não vislumbro pessimismo algum, tampouco vejo algo fatalista despontar. O que busco é algo prático, terreno, que prime pelo livre-arbítrio e humanidade; nada romântico. Romantismos temos hoje aos montes, e como se não bastasse o volume que ocupam, muitos deles fedem a bolor.

De qualquer maneira, devemos higienizar algumas coisas. Quando digo milhões de pessoas desaculturadas, não me refiro à cultura no sentido esmerado, mas sim a um ponto de consciência. Não há absolutamente nada de néscio em jogar sinuca, tomar cachaça e se reproduzir; o que é danoso a todos é a falta de um senso mínimo para se lidar com nossa realidade consumista e dinamizada (por que não temos tempo, por que sempre aceitar, por que sempre comprar, por que não reclamar?). E então não será surpresa que, por conseguinte, essa grande massa se reproduza e gere uma nova prole idêntica; acabando por sufocar minorias que não gozam de mesma consciência. Assim quando digo que iremos morrer sendo mais idiotas que os outros, é pelo fato de assim o sabermos e nada fazermos. Não somos hoje corpos tão dóceis, mas isso em nada acarreta.

No mais, a classe de esfarrapados é classe oriunda de uma história inteira de admoestações e bordoadas, que apesar de seu número, hoje vive sob sombra. Parece-me por vezes, a classe que não deixaram vingar. O que deixa de ser uma cultura tão arbitrária, não? Quantas potencialidades nós perdemos aí? Quantas vamos perder?

Quero salientar o seguinte: hoje, para que se possa vislumbrar alguma evolução, é fundamental uma crítica a cultura. Para que esta possa se projetar, é fundamental sua audição. Para que haja audição, é imprescindível que todos ouçam. E quando houver audição, teremos força. Esta é a parte romântica.

Sobre a parte terrena, posso citar a banda. Mas e o empilhamento? Digo que não são apenas as pessoas desaculturadas que padecem de um nível de consciência mais saudável. O que é tão lúgubre quanto os citados milhões.

Por fim tenho também um apelo, digo, uma apóstrofe: Deus! Dai-nos orgulho.

quarta-feira, dezembro 21, 2005

A cultura? Mas essa é a mercadoria ideal, que obriga a comprar todas as outras. Não é estranho que você queira oferecê-la a todos...

I.

Não pretendo ir muito adiante com esse assunto. Afinal, não é preciso muito para perceber que estamos representando humores distintos em relação ao tema: de um lado, um pessimismo de cores nietzchianas, meio que fatalista. Do outro, uma postura idealista e – como não? – um tanto romântica.

Discutir pessoalmente é diferente do que ler, raciocinar e produzir um texto sobre um tema. As estratégias de retórica empregadas em ambos os casos são diferentes. Sem as interferências e interjeições de outros locutores, típicas de uma discussão verbal, estamos relativamente mais livres para ressaltar determinados pontos de vista e para encastelá-los por detrás de citações de autores consagrados, premissas intocáveis, argumentos positivos e floreio lingüístico. Todos temos um pouco de sofistas.

II.

Algumas vezes, admitir que estamos impregnados de moralismos é menos pernicioso do que nos julgarmos amorais ou livres de quaisquer influências. Afirmar que “temos milhões de pessoas desaculturadas” e “que os idiotas se reproduzem”, muito além de ser atual e metódico, significa também assumir o pressuposto moral de que os esclarecidos são mais valiosos que os tolos e de que, sem a alta cultura, estamos todos fadados ao fracasso. E mais: a afirmação nos posiciona obrigatoriamente e logicamente em um dos dois lados da distinção: o belo lado dos esclarecidos e libertos, pois se fossemos idiotas estaríamos jogando bilhar em algum boteco por aí, bebendo cachaça e reproduzindo – tarefas e ocupações tradicionalmente atribuídas aos néscios.

Para além da má distribuição de renda ou opressões institucionalizadas, é este tipo de pré-concepção e distinção que enterra os medíocres sob a sombra da minoria intelectualizada e cria aberrações como o comunismo stalinista e burocracias esclarecidas e ineficientes. Afinal, em oposição aos europeus e outros tipos de esclarecidos de alta estirpe, somos também todos ignorantes inertes, apesar de escrevermos para um blog onde cita-se “Nit-chê” freqüentemente. Nossa cultura é tão imposta, construída e derivada de outras culturas quanto a cultura da massa dos estropiados (sim, eles possuem uma cultura!).

III.

Eliminando nosso verniz de classe média, nossa educação privilegiada e as possibilidades providenciadas por nossa história de vida, somos tão humanos quanto a massa dita “desaculturada”. Os bebês possuem todos, ao nascer, as mesmas potencialidades. A diferença entre os “fracassados” e os “bem-sucedidos” reside nas possibilidades que decorrem do contexto de seu nascimento: sua família, classe, etnia ou Estado.

Nosso sistema de valores (atualmente tão mercadológico quanto qualquer outro) prima pela obtenção, manutenção e ostentação da cultura. Somos fetichistas da cultura - ela é nossa língua e nossa moeda. Os esfarrapados, por sua vez, certamente se guiam por outros valores, que sequer posso citar, pois nunca os aprendi completamente.

Qualquer julgamento ou hierarquização moral que possamos fazer, deve considerar estes fatores, ou estaremos incorrendo em injustiça e imprecisão. Deve-se dar voz aos rotos e aos tolos, pois eles tem muito o que falar. Sobretudo, devemos estar dispostos a ouvir, ou então estaremos falando apenas de nós mesmos. Devemos abandonar as análises assimétricas, ou produziremos apenas conclusões frágeis.

Algumas das pessoas mais maravilhosas que pude conhecer são filhos de lares menos abastados e culturalmente qualificados, mas nunca ficaram devendo nada aos “esclarecidos”. Custou-me muito para perceber que as virtudes humanas são inúmeras e que existem além dos discursos articulados ou do conhecimento sobre Bandeira, Wagner ou Duchamp.

Taxar a todos de noctâmbulos é uma generalização arriscada. Desconsidera a genialidade necessária para construir condições de vida em meio à escassez material e espiritual e as vicissitudes de manutenção de identidade e construção de reflexões em meio ao desgaste de trabalhar por oito horas no chão de fábrica. Meu único apelo, carregado de idealismo e talvez um tanto ingênuo, é que evitemos os discursos nublados pelo orgulho, pela hybris.

Ou então vou começar a escrever sobre futebol, cerveja e mulher.

Um grande abraço
Spiess

quinta-feira, dezembro 15, 2005

A raposa culpa o ardil, não a si mesma.

Bem, discordo de algumas partes. É interessante explicitar o interesse realmente prático nas questões.
Sabemos que há sim um limite físico para a pacata cidade (pelo menos enquanto a encararmos sob tal desígnio). Dentre o limite há escolas, hospitais, etc. E os imigrantes têm todo direito de usufrui-los, mas Timbó acabará por não suportar muitos deles. Haja vista a deficiente estrutura a qual, nós, cidadãos de classe média gozamos.

Ainda, digo-lhe que o fato de ver um mendigo não deve causar asco algum. Schopenhauer dava o seguinte sofisma para atestar o aspecto negativo do mundo: visite um hospital de guerra. Ele me parece ingenuamente moralista. Não há motivo algum para sentir asco dum mendigo, tampouco para ajudá-lo. Pode parecer algo irrelevante, mas sutilezas hoje são importantíssimas.

Sobre sua posição a questão cultural e de contribuições, isso guarda algo de falansteriano. Sejamos atuais e metódicos; esse novo contigente é absolutamente noctâmbulo. Despertá-los? Mais escolas, melhor ensino, melhor infraestrutura, menos TV? Digo lhe que a anarquia têm algo de belo, mas creio estarmos anos-luz de algo funcional. Temos milhões de pessoas desaculturadas, e uma corrente midiática que foca unicamente o sexo. Os idiotas se reproduzem. O tempo de escolhas há muito se foi. Ou param de nascer, ou todos morremos juntos, todos idiotas.

Resumindo, ninguém aqui, creio, faz questão de uma casa com cerca branca. O que queremos é ter alguma liberdade. Sabemos que o estado é falido, que há corrupção, capitalismo exacerbado. Mas por que milhões de pessoas jogam o mesmo jogo e nós não podemos joga-lo de nossa maneira?
O estado e o capital hoje são a combinação perfeita: manipulam ambos os lados. Nietzsche devia saber disso, e apesar de flertar com o suícidio, escolheu apanhar. Deve ter deixado algumas pessoas enraivecidas, ainda que até hoje não o saibam.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Casinha de boneca...

Senhores,

acho que como foi colocada, a questão nos leva para caminhos um tanto tortuosos. Primeiro, por reproduzir a preocupação de todo cidadão respeitável e bundão de classe média de Timbó: o fim do sonho da casinha de bonecas timboense, a invasão da cidade por uma horda de descamisados, sujos, apodrecidos, pobres & burros, mas suficientemente audaciosos para tomarem nossos empregos e poluírem nosso espaço público. O timboense médio pensa que vive numa espécie de Europa fisicamente deslocada e reproduz até mesmo o discurso dos europeus sobre os imigrantes, que gerou conflitos como aquele recentemente ocorrido na França.

Além disso, quando perguntamos "Qual o limite saudável de imigração para a pacata cidade?" estamos incorrendo em uma proposta arriscada, no sentido de atribuir qualidades das ciências naturais para eventos sócio-políticos ou sócio-econômicos. Isso deixou de funcionar há pelo menos uns cem anos, quando as pessoas perceberam que o mundo natural e o social possuem especifidades distintas. E, se pensarmos em termos de "saúde" ou "patologia", a vida em Timbó já é suficientemente doente. Somos neuróticos, psicóticos e paranóicos, mas não por culpa dos paranaenses, catadores, mendigos e bandas satânicas.

Como anarquista enrustido, acho que não há razão para que o Estado venha a interferir na questão. O Estado já é falido, desvirtuado e incapaz. Se permitirmos uma intervenção desse tipo, estaremos abrindo precedentes para outros tipos de controle. Timbó já um tanto sufocante, não precisamos de outros constrangimentos, como o aumento do contingente policial.

O cerne da questão, eu creio, não reside na migração e tampouco na criminalidade. O ponto central é o modo como distribuímos nossas riquezas, como é construído o acesso aos mecanismos democráticos e como estabelecemos nossa intersubjetividade.

Acumulamos, em um curto período histórico, uma grande quantidade de trabalho e riqueza, infra-estrutura urbana e certas condições de bem-estar social. É compreensível que uma população mais pauperizada e reprimida acabe procurando usufruir dessas condições. É possível que exista uma tensão entre a população nativa e os "estrangeiros", uma certa resistência.

A violência surge dessa tensão. Os ricos querendo manter suas posses e os pobres, para os quais o processo de acumulação de quaisquer tipos de capital é mais dificultoso, apelando para atitudes mais dramáticas. É duro sentir a violência na pele, é desagradável ver os mendigos pedindo esmola na frente da sua casa, mas é preciso lembrar sempre que somos atores igualmente ativos no processo. Nossa atitude diante das coisas determina nossa própria realidade.

Por fim, proponho um exercício de imaginação: pensem em como Timbó seria menos medíocre e culturalmente mais produtiva se aceitássemos com maior facilidade as contribuições, os valores e as experiências de vida dos diferentes, dos migrantes, dos pobres e fudidos da vida.

A vida na casinha de boneca é muito bonita, mas sufoca de tão monótona.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Bem, podemos começar nossa discussão com um tema aparentemente simples: migração.
Depois de constatar a presença de catadores de papelão e suas carroças, mendigos, propagandas em postes ofertando empréstimos, e festivais de metal satanista com nomes e bandas praticamente randômicas, chego a implácavel conclusão de que nossa pacata cidade cresceu.
Assim, devido a adiantada hora, formulo apenas algumas perguntas: Qual o limite saudável de imigração para a pacata cidade? Como estabelecer um limite? Se este for ultrapassado, como reequilibrar a qualidade social? Deve o estado intervir? Como? Há um ponto onde o xenofobismo torna-se inevitável?

ps.: lembrem-se que essa é apenas uma sugestão de assunto.
À medida que buscamos as origens, vamos nos tornando caranguejos. O historiador olha para trás; até que finalmente também acredita para trás.